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Publicado em Entrevistas

VITOR PAIVA, Músicas e palavras de um jovem poeta. 2007

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VITOR PAIVA

MÚSICAS E PALAVRAS DE UM JOVEM POETA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 vitorpaiva

 

Ele é carioca, mas morou aos três meses de vida em São Paulo. Se considera meio paulista, meio carioca, meio paranaense, meio judeu e meio ateu. Mas nada disso importa quando alguém acredita que a poesia explica a vida, acima do que qualquer outra coisa.

“Venho de uma criação católica na qual os pressupostos são jogos de poder, mas escolho o que é mais livre. Sou a favor do corpo. Paraíso é o caralho! Tenho fé no ser humano, na existência e de que o mundo pode ser melhor”

A poesia é o que mais está presente em Vitor Paiva, seja quando trabalha como músico, escritor ou comentarista de TV. Seu jeito de ser lembra muito um personagem de história em quadrinhos, principalmente a forma de se vestir: óculos redondos, cabelos desgrenhados, jeans, camisa de botão e All Star. Talvez, uma das mais importantes produções do cartunista e escritor Miguel Paiva, seu pai.

“Uso óculos desde os quatro anos de idade, tenho miopia e astigmatismo. Aos 16 anos, namorei uma menina que me falou assim: ‘Você parece um desenho animado! O jeito de andar e de se vestir…’ Achei estranho aquilo, mas não se tornou uma preocupação efetiva. Embora eu tenha forte preocupação com a estética”.

Li o seu primeiro livro Tudo Que Não É Cavalo (Cavídeo) há uns dois anos, mas resolvi entrevistá-lo depois que fui ao lançamento Boca Aberta (Confraria do Vento), no Cinematèque, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Essa conversa aconteceu em Ipanema, na Livraria da Travessa, num fim da tarde de uma quinta-feira.

“Tem um clássico no CEP que é quando o Zarvos chega para você e pergunta: ‘Você é poeta?’. Eu, aos dezesseis anos, respondi: sou poeta! Assim passei a me sentir mais à vontade e a acreditar. Devo toda a minha experiência de palco, como músico e escritor, ao CEP 2000…”

O papo foi longo, gastou duas fitas do meu velho gravador.

Músico, escritor, poeta, cronista, produtor cultural e comentarista de TV. Como você consegue fazer tudo isso?

Vitor Paiva – Não faço tudo ao mesmo tempo. É um processo natural! Se alguém me perguntar o que faço, respondo que sou escritor e músico. Tudo o que faço é desdobramento disso. Na verdade, tudo é música.

Como está sendo a experiência de assinar a assistência de direção da peça Homem Música, do Michel Melamed?

VP – Eu já havia trabalhado com o Michel na assistência de palco deRegurgitofagia e também na TVE. Essa peça teve um processo maravilhoso de sentar com um texto e inventar o espetáculo. A gente escolheu uma maneira bonita de contar a história. A experiência é incrível.

Existe preconceito por você transitar em várias áreas?

VP – Já senti preconceito por isso sim. Mas, repito, tudo é muito natural. E tem mais, não posso dizer que Caetano é só um músico e que Vinícius é só um poeta. É uma besteira restringir um artista. Como é besteira restringir um artista porque ele é filho de um artista conhecido.

Ser filho de pai famoso o incomoda?

VP – Não. Quer dizer, uma época incomodou um pouco, mas isso é uma maluquice! Acho meu pai bom para caralho, tem mais é que ser conhecido mesmo. E, em termos profissionais, ser filho do Miguel Paiva não me prejudica em nada.

Sua família influenciou a escolha pelo seu trabalho?

VP – Inevitavelmente tive a influencia do meu pai. Ele trabalhava em casa num estúdio, e eu adorava ficar ali com ele. O meu irmão mais velho é designer, o mais novo desenha, e, quando garoto, eu desenhava também. Tenho um fascínio tremendo por artes plásticas; se não fosse músico, seria pintor. Minha mãe tem relação com as artes. Apesar de ela ter sido aeromoça até os trinta anos, hoje em dia trabalha com figurino – diretora de figurino da TV Record. Ela era do Paraná e ganhou o mundo muito cedo.

Você é escritor e tem uma banda de Rock, Os Outros. Como é a sua relação com a música e a literatura?

VP – Quase uma coisa só. Claro que há escritos meus que sei que são literatura e não música, mas essa separação é muito tênue. Minha produção musical é mais aflita, é necessária. A música me toca na vida mais do que qualquer coisa. A minha primeira pretensão artística foi musical

O que é mais difícil de fazer: música ou literatura?

VP – Nada é fácil, pelo menos para mim. Sou um criador de ideias fluido; tenho muitas ideias o tempo todo. Mas o desenvolvimento não é nada fácil, e sim doloroso. Sinto isso mais com a música – talvez a minha relação com a literatura seja mais livre, porque exclusivamente de prazer. Trata-se de uma declaração de amor à música, mas ao mesmo tempo ciente de que existe aí certa dor; acho que levo a música mais a sério. A música é tudo e a literatura é quase tudo.

Como funciona o seu processo criativo?

VP – Estou o tempo inteiro trabalhando, me preocupo em estar sempre ligado e lendo. Não consigo entrar no banheiro sem algo para ler e é um lugar onde também escrevo muito. Minha escrita é muito ligada à leitura. As frases me encantam muito; certamente troco um tema por uma frase.

E como você lida com a poesia?

VP – Minha relação com poesia é muito maior com a brasileira do que com a estrangeira. Pego a poesia do Drummond, do Gullar, do Leminski, do João Cabral e fico me perguntando como tenho coragem de escrever poesia depois disso. Mas, como tudo é música, me permito fazer e que se foda. É a minha poesia. Acredito que eu sou eu. Pode ser uma bosta o que escrevo, mas sou eu.

Por que você escreve?

VP – Tem uma entrevista do Paulo Leminski em que ele responde assim: “Porque senão o que?” É isso na verdade. Escrevo porque é o que mais próximo com o que a vida é. Sou sensível à vida e essa foi a melhor maneira de interagir com o mundo e comigo. Sempre através da arte.

Você é ateu?

VP – Sim, sem nenhuma dor. Li dois poemas do Drummond que definem o meu ateísmo. O primeiro diz: “E se Deus é canhoto e criou com a mão esquerda? Isso explica, talvez, as coisas desse mundo.” E o outro: “Tarde, a vida me ensina esta lição discreta: a ode cristalina é a que se faz sem poeta.” Venho de uma criação católica na qual os pressupostos são jogos de poder, mas escolho o que é mais livre. Sou a favor do corpo. Paraíso é o caralho! Tenho fé no ser humano, na existência e de que o mundo pode ser melhor.

Enxergo mais poesia no seu primeiro livro, Tudo Que Não é Cavalo(Cavídeo – 2004), e maior presença da música no Boca Aberta(Confraria – 2007)…

VP – É curioso, pois comecei a escrever o Boca Aberta antes do Cavalo. A primeira parte do Pensamento de Boca Aberta começou com e-mail e fui trabalhando durante seis anos. O primeiro livro tem uma coisa adolescente de afirmação e fetiche pelo objeto livro. O Cavi (Borges) me propôs a publicar o primeiro livro, foi o responsável por tudo. Mas é o Boca Aberta que defendo de verdade. Acho que, por ser um livro mais planejado, com cabeça, tronco e membros. Mas não que eu desgoste do outro.

É difícil classificar seu novo livro. Conto, romance ou poesia?

VP – Engraçado, quando fui registrar eu tinha que marcar uma opção. Deixei a escolha para o funcionário que me atendeu, ele escolheu “poesia”. Quando liZombar, do Guilherme Zarvos, tive certeza de que eu podia misturar tudo.

O Centro de Experimentação Poética – CEP 2000 transformou a sua vida?

VP – Sim! Foi uma influencia direta. Quando cheguei ao CEP com o Botika, estavam comemorando dez anos de edição. Lá conheci Michel Melamed, Pedrinho Rocha, Chacal, Luiz Felipe Leprevost. Foi quando me senti escritor. Tem um clássico no CEP que é quando o Zarvos chega para você e pergunta: “Você é poeta?”. Eu, aos dezesseis anos, respondi: sou poeta! Assim passei a me sentir mais à vontade e a acreditar. Devo toda a minha experiência de palco, como músico e escritor, ao CEP 2000…

Você estuda jornalismo na PUC- RJ. Você acredita no curso de formação de escritor que existe lá?

VP – Já assisti a uma dessas aulas. Na verdade, tenho uma relação esquisita com a academia. Ela está sempre contando o que aconteceu e ignora o que está acontecendo de fato. E acho que “formação de escritor” é estranho…

Você assiste ao programa de TV que apresenta?

VP – Até assisto, mas gosto de assistir sozinho porque sou muito autocrítico. A TV tem uma dimensão muito louca! Por mais que seja na TVE, muita gente lhe dá retorno. Assisto à TV, mas com muitas ressalvas. Por exemplo, não gosto das novelas, que são profundamente didáticas e moralistas, propagandas travestidas de vida real; não quero fazer patrulha, mas acho um horror, um ‘Auschwitz intelectual’.

O que você lê?

VP – A primeira relação importante com a literatura foi Distraído Venceremos, do Paulo Leminski. Eu achava poesia uma coisa muito chata quando minha mãe me deu esse livro. Foi o meu marco zero. Depois ela falou para eu ler Cem Anos de Solidão, e enlouqueci. Até hoje lembro o início do livro de cor: “Muitos anos depois, defronte ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía teria lembrado daquela remota tarde em que seu pai o levara para conhecer o gelo.” Depois, li Metamorfoses, do Kafka, escritor que o Garcia Márquez dizia que o despertara para a escrita. Mas tenho experiências com Drummond, Gullar, Fernando Pessoa, Beatles, Nirvana, Caetano Veloso, Waly Salomão, Chacal, Cortázar – devo meu último livro a ele. E também gosto muito de biografias.

Você lê os seus contemporâneos?

VP – Menos do que deveria. Leio aqueles que gosto como escritor e pessoalmente também. Domingos e Augusto Guimaraens, Mariano Marovatto, Botika, Pedro Rocha, Michel Melamed, Guilherme Zarvos…

Como você vê o movimento artístico de hoje?

VP – Acho que existe uma produção musical muito forte na minha geração e na minha esquina – o Rio de Janeiro é muito rico nesse sentido. Acho que é como sempre, coisas maravilhosas e coisas ruins.

Fecho os olhos e sempre me lembro de algumas pessoas que têm uma identidade visual forte. Você, por exemplo, como um personagem. Você tem consciência disso?

VP – Não é uma coisa com que exatamente me preocupo. Uso óculos desde os quatro anos de idade, tenho miopia e astigmatismo. Aos 16 anos, namorei uma menina que me falou assim: “Você parece um desenho animado! O jeito de andar e de se vestir…” Achei estranho aquilo, mas não se tornou uma preocupação efetiva. Embora eu tenha forte preocupação com a estética.

O que você diria para quem está começando a escrever?

VP – Ué, eu tô começando a escrever… Mas o que digo para mim mesmo é: Leia!

Vitor em uma palavra.

VP – Sim!

331843 Última modificação em Terça, 24 Novembro 2015
Ramon Nunes Mello

Poeta, escritor, jornalista e ativista de direitos humanos. É autor dos livros de poemas Vinis mofados (Língua Geral, 2009) e Poemas tirados de notícias de jornal (Móbile, 2011).

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