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Pedro Cezar assina 'Só Dez Porcento É Mentira', a "desbiografia" oficial do poeta Manoel de Barros

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A VIRTUDE DE SER INÚTIL

Pedro Cezar assina 'Só Dez Porcento É Mentira', a "desbiografia" oficial do poeta Manoel de Barros

Ramon Nunes Mello  [29.01.2010 publicado no Cultura.RJ]

 

Há quem se surpreenda ao descobrir que os documentários Fábio Fabuloso (2004) e Só Dez Porcento é Mentira (2008) foram dirigidos pelo mesmo cineasta: Pedro Cezar. O que tem a ver poesia e surfe?

“Quem pega onda olha a vida do ponto de vista do horizonte e lida com ninhos de água. Quem gosta de poesia também olha a vida do ponto de vista do horizonte e também lida com ninhos de água. Fabio Gouveia e Manoel de Barros são poetas. O primeiro escreve no mar sem partir a linha e o segundo diz que ‘imagens são palavras que nos faltaram’ Os dois produzem encantamentos e nos fazem transver”, afirma o cineasta, que pega onda desde os 10 anos e é autor de dois livros de poesia: Puizía e Concepção de Frases em Ninhos de Água.

A transição de um filme para outro - “se houve foi fluida, tranqüila” - moldou o olhar de Pedro Cezar, capaz de captar instantes preciosos de personagens que fazem do dia-a-dia mais do que uma simples repetição de fatos. A prova desse ponto de vista está no cinema, num filme definitivo sobre a vida do poeta Manoel de Barros: Só Dez Porcento é Mentira - a “desbiografia” oficial de um dos principais poetas contemporâneos.

“O filme prioriza eventos desimportantes, iluminuras, ‘reino da despalavra’, escamas das horas, ‘pétalas das ondas’ e comparecimento aos desencontros. O filme deliberadamente exclui datas cronológicas, batizados, formaturas e bodas de ouro. Chamamos a esse tipo de narrativa, ‘desbiografia’. ‘Transver’ a obra nos pareceu mais adequado do que enumerar datas e informações biográficas.”

O título do filme refere-se a uma frase do poeta: "Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira". As palavras de Manoel de Barros conduzem a narrativa ao ‘reino da despalavra’. É com as palavras de Manoel de Barros escritas na tela, que o diretor captura o espectador/leitor logo no primeiro frame do longa:

“Há várias maneiras de não dizer nada. A poesia é uma delas”.

Aos poucos, o poeta permite ser desvendado. Mas, antes disso, o diretor teve o trabalho de convencê-lo a aceitar o projeto do filme. Conta a lenda que, por mais de 70 anos, o poeta deu entrevistas somente por escrito. Manoel de Barros só concordou em participar das filmagens depois de inúmeras visitas da equipe à fazenda, em Corumbá. Fazer o poeta falar não é tarefa para qualquer pessoa, um mérito incontestável. Pedro Cezar ficou durante dias insistindo, mas o poeta era categórico: "sou um ser letral" ou "o melhor de mim é a minha obra e ela está à sua disposição". Quando o cineasta desistiu, alegando que a idéia não se passava de um “sonho”, o poeta resolveu participar da história.

Para amarrar a narrativa poética, o filme é recortado por depoimentos de artistas que tiveram seu trabalho enriquecido pelas palavras de Manoel de Barros: a atriz e poeta Elisa Lucinda; a poeta e filósofa Viviane Mosé; a atriz e jornalista Bianca Ramoneda, que encenou Inutilezas; o cineasta Joel Pizzini, que fez o curta Caramujo flor (1988); e o escritor e jornalista Fausto Wolff – falecido em setembro de 2008 – lembra que “o mundo precisa dos poetas”. A escolha dos depoentes nem sempre é escolha fácil, principalmente quando se trata em apontar “pessoas que são ‘órgãos extensivos’ do idioleto Manoelês”.

“Até hoje fico confuso se boto o feijão por cima ou o arroz para cobrir. Isso sem falar da farinha. Seria uma tremenda injustiça esquecê-la. O processo de escolha foi fruto de pesquisa, empatia, logística, várias entrevistas e muitos testes de elenco. Fui atrás de pessoas que eu sabia que tiveram suas vidas transformadas pela leitura dos versos do Manoel.”, explica o diretor.

Manoel de Barros começou a publicar em 1937, com Poemas concebidos sem pecado. Mas só ficou conhecido nos anos 80, quando Millôr Fernandes começou a publicar poemas de Manoel nas colunas nas revistas Veja, IstoÉ e no Jornal do Brasil. Outros intelectuais apostaram no poeta, entre eles Antônio Houaiss. Manoel tem mais de 20 livros publicados e, dentre os mais conhecidos, Compêndio para uso dos pássaros; Livro sobre nada; Gramática expositiva do chão eArranjos para assobio.

Mas, a que se deve a popularidade do poeta? Pedro Cezar arrisca uma resposta:

“Teve uma época que desejei ardentemente ter um livrinho meu prefaciado pelo Manoel. Ele deu um toque melhor que qualquer prefácio. Me disse: "o único cartão de visita de um poeta é o que ele escreve". A popularidade do Manoel se deve exclusivamente a qualidade absurda de seus versos. Ele começa com maiúscula e termina com ponto final mas no miolo coloca encantamentos próprios e linguagem única. Manoel não virou letra de música que toca em rádio, não está na mídia e nem tem ex-mulheres gritando nos jornais atrás de pensão indenizatória. Mesmo assim, quem pega um livro dele se sente aditivado e sai por aí repassando seus versos. Isso é incrível. Cada leitor de Manoel o multiplica tal qual o milagre dos peixes.”, conclui.

No filme, durante a conversa com Manoel de Barros, o cineasta pergunta: “Pra que serve poesia?” O poeta dá uma risada e diz:

“Essa pergunta já foi feita”. Em seguida, completa: “Poesia é a virtude de ser inútil”.

A partir dessa declaração, o diretor elabora a definição do seu filme: “É longa-metragem concebido e realizado por uma equipe de desocupados da área audiovisual que documenta a longa trajetória de aquisição do ócio do poeta sul-mato-grossense Manoel de Barros”.

“Pra que serve poesia?”, repito a pergunta ao diretor.

“Essa pergunta é inesgotável. E ao mesmo tempo, irrespondível. Mas vou tentar assim mesmo: poesia serve pra fazer o tempo andar de costas. Melhor dizendo... poesia serve pra fazer o tempo não se dar conta. ‘Desexplico’: tem um peixe bem grande que fica escondido debaixo da quina do horizonte. Toda vez que alguém faz um poema, o peixe pisca pras nuvens e sopra uma onda em direção à vida. A onda anda e nem se percebe. Sorte de alguns surfistas. Ou de certos poetas."

O documentário foi produzido entre 2005 e 2008, em parceira com Kátia Adler e Marcio Paes. Estreou no Festival do Rio de 2008 e levou o prêmio de melhor documentário na segunda edição do Festival Paulínia de Cinema 2009. Depois de cumprir o maior ciclo possível de viagens e festivais, distribuído em formato digital, o filme está exibido em apenas duas salas no Rio de Janeiro (Unibanco Arteplex e Cine Santa Teresa) – antes ficou em São Paulo, com matérias e críticas elogiosas em jornais.

“Muito filme pra pouca sala!!!”, esperneia Pedro Cezar.

Só Dez Porcento é Mentira fica para a história para revelar a alma de Manoel de Barros, assim como a obra do poeta. Está em cartaz até o dia 28 fevereiro.

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Ramon Nunes Mello

Poeta, escritor, jornalista e ativista de direitos humanos. É autor dos livros de poemas Vinis mofados (Língua Geral, 2009) e Poemas tirados de notícias de jornal (Móbile, 2011).

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