Out 09 Escrito por 
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Entrevista com Ramon Mello, por Juliana Kraap

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Entrevista com Ramon Mello, por Juliana Kraap [Saraiva Conteúdo]

 

A fala veloz dispara pela porta, antes mesmo que a figura do emissor apareça na sala, o sorriso inesgotável e os All Star coloridos. Ramon Mello surge como que acionado por muitos volts. Num mesmo fôlego, elabora cumprimentos afetuosos, mostra um livro, indaga se deve trocar de camisa. E num piscar de olhos já está vestindo outra blusa, impulsionado pela inquietude que é sua marca primordial. 

É ela, afinal, que está à mostra nos seus versos de estreia, publicados em Vinis mofados (Língua Geral, 2009). Ou em Enter – Antologia Digital (2009), coletânea que co-organizou com Heloisa Buarque de Hollanda e que reúne, na internet, o trabalho de 37 novos autores. E ainda nos blogs Click(in)VersosSorriso do Gato de Alice e Letras – Saraiva Conteúdo, todos de sua autoria. 

Ramon, que nasceu no balneário fluminense de Araruama, veio para a capital já adolescente, estudar teatro, área da qual herdou o talento para fazer burburinho e agregar artistas em torno de iniciativas em comum. A mais recente delas é a mobilização que tem criado para lançar luz sobre a obra de Rodrigo de Souza Leão, escritor que morreu precocemente em 2009, deixando um vasto material inédito. Eleito pela família o curador desses inéditos, Ramon já negociou com a editora Record a publicação de uma série de livros de Rodrigo. O primeiro deles é o romance Me roubaram os dias contados. E no segundo semestre desse ano, Ramon assinará a direção, junto com Flavio Souza, da adaptação teatral da novela Todos os cachorros são azuis, único livro publicado por Rodrigo em vida, cujo projeto conquistou o patrocínio da Oi Futuro. 

“Eu não consigo entender a arte sem a troca”, afirma Ramon nessa entrevista, referindo-se tanto ao intercâmbio entre os diversos campos artísticos quanto à rede de encontros pessoais que os tece. Do centro de sua inquietude, ele ainda revela que está trabalhando seu primeiro romance, All Star bom é All Star sujo.

Você é jornalista e poeta, escreve prosa e poesia, organiza coletâneas. De onde vem tamanha força criativa?

Ramon Mello - Antes de pensar em fazer teatro, poesia ou prosa, eu tenho tesão é pela palavra. Porém a forma como esse tesão aparece não depende do projeto no qual estou envolvido. A palavra me chegou através do teatro. Não tenho família de pais leitores, com biblioteca. Mas quando eu era adolescente, em Araruama, experimentei o teatro. Depois vim para o Rio de Janeiro e fui estudar na Escola de Teatro Martins Pena. Lá existe uma biblioteca que éramos obrigados a consultar muito. Foi então que eu comecei a ter mais contato com os livros. Antes, no colégio, eu até lia muito, mas eram sobretudo histórias infanto-juvenis. A verdade é que nem sempre a minha paixão pela palavra se expressa por meio da literatura. Ela pode vir para o palco, numa relação mais física, corporal. 

Por que você escreve, já sabe? 

Ramon Mello- Eu sempre me faço essa pergunta, e as respostas são as mais variadas. Acho que ainda pergunto justamente porque não sei. Escrevo por muitos motivos. Escrevo porque estou feliz, porque estou triste, porque quero me vingar, porque quero me comunicar. Quanto mais eu pergunto, mais dúvidas tenho. Mas acaba sendo uma necessidade. Eu não consigo me ver hoje em dia sem escrever. Quando chego em casa, não tenho vontade de ligar a TV. Vou para o computador e sento para escrever. Passou a ser uma atividade primordial. Acho até que a pergunta “por que escrever” para mim já não importa mais. Importa que eu tenho que escrever, tenho que colocar a palavra no papel. 

Seu primeiro livro é de poesia, considerada um gênero difícil. Por que essa escolha?

Ramon Mello - Nunca sonhei em ser poeta. Gosto de me comunicar, e por vezes a escrita vem através da poesia. Um dia eu apresentei um romance para a editora Língua Geral, e o editor Eduardo Coelho fez uma série de observações sobre o livro. Percebi que a publicação não seria logo, precisaria retrabalhar o texto. Mas a editora estava lançando um selo de poesia, e eu resolvi mostrar uma série de poemas, que viraram o Vinis mofados. Foi uma estreia feliz. É um livro despretensioso, mas tem uma voz muito forte ali dentro. Há muitas referências literárias e musicais. A música popular brasileira é muito forte no que escrevo. Sempre ouvi muitos discos de vinil, que coleciono. Um dia cheguei no conjugado onde morava, em Copacabana, e vi que todos os meus discos estavam mofados. Eu os tinha mudado de posição, para perto da parede do banheiro, que estava úmida. Mofou tudo e eu não vi, porque tinha ficado um tempo sem mexer nos vinis. Aquilo me deixou muito sensibilizado, chorei muito. Eram discos que eu colecionava há cinco, seis anos, catava em sebos que nem um louco. Isso me marcou, e a partir daí eu comecei a escrever poemas. Em paralelo à música brasileira, passei a dialogar com os autores que eu também trazia como referência, principalmente na prosa. Na poesia, Cecília Meireles, [Manuel] Bandeira e [Carlos] Drummond são muito fortes. Mas a prosa sempre veio primeiro para mim. O Caio Fernando Abreu foi um autor que eu descobri no teatro, depois fui ler os outros textos dele, e ele me levou para a Clarice Lispector, que me levou para o Lúcio Cardoso, que me levou para outros autores. É uma teia. A literatura é essa teia, e acho que o Vinis tem essa teia de diálogo com os autores e com os poetas da música. Porque eu considero poetas os compositores brasileiros: Caetano Veloso, Tom Zé, Arnaldo Antunes, Chico Buarque. E também as cantoras, as grandes intérpretes. 

Há uma característica muito marcante em você: sua capacidade de reunir gente. Você não é só poeta, escritor, jornalista, é também um agitador.

Ramon Mello - Acho isso fundamental. É uma herança que eu trago do teatro, essa agregação, esse contato com as pessoas. Eu não consigo entender a arte sem a troca. A escrita é um fazer muito solitário, a gente tem que sentar, refletir e trabalhar o texto. Por isso acho tão necessário conversar com os mais novos e com os mais velhos, fazer as pessoas se conhecerem. Faz parte do processo do livro. O livro não termina no próprio livro. Ele continua na relação com o outro, continua até sem o próprio livro. Eu li o livro e estou conversando com você, e você vai conversar com outra pessoa. O teatro tem uma coisa de unir, uma relação mais companheira. E eu tento trazer isso para a literatura. 

Como você descreve essa geração que coube na Enter - antologia digital?

Ramon Mello – O termo “geração” é sempre polêmico, e essa geração é muito maior do que o grupo que está lá dentro. Mas ali tem um recorte importante, tem o olhar de uma crítica literária, a Heloisa Buarque, que é atenta aos movimentos culturais de sua época. Na antologia há músicos, poetas, compositores, artistas plásticos, showman. A palavra não se restringe ao papel. É isso que a Heloisa mostra com a antologia. Você não precisa só do livro para se tornar um escritor. Você pode criar seu blog, fazer seu público e publicar assiduamente. E ao mesmo tempo pode extrapolar isso, pode fazer um vídeo lendo poemas e colocar na internet, pode manter contato com uma pessoa e conhecê-la pessoalmente, mas não querer publicar nada. A internet ajuda a mostrar essa geração. Tem quadrinista que faz seu cartoon e imediatamente coloca no blog, fazendo com que ele circule o mundo todo. Antigamente a gente ficava limitado a um livro, mandava por correio para as pessoas. Agora você coloca na internet e está disponível. Eu tenho um blog, o Sorriso do Gato de Alice, que é meio um bloco de notas. Posto meus textos, os jornalísticos e os literários, comento alguma coisa. Quando olho a página de visitas, há registros de Portugal, Espanha, França, Bahia. O texto corre, você não tem mais controle sobre ele. Essa geração que está aí se apropriou disso. A geração de 20, 25 anos sabe usar muito bem a internet para a literatura. Acho a internet hoje é fundamental para a literatura. 

Você ainda tem bloco de papel? 

Ramon Mello - Sim. Sempre escrevo primeiro no papel, não consigo largá-lo. 

Você é o curador da obra do Rodrigo Souza Leão. Como foi o caminho até aí?

Ramon Mello - O Rodrigo é até hoje uma alegria na minha vida. Nos conhecemos numa entrevista. Eu trabalhava no Portal Literal e recebi um exemplar do Todos os cachorros são azuis, o primeiro romance que ele publicou, pela editora 7Letras. Li esse livro num café e fiquei muito impressionado. Sabe quando você lê alguma coisa que queria ter escrito? Eu pensei “queria ter escrito isso, esse livro é genial”. Então eu quis adaptá-lo para o teatro, falei para mim mesmo: “Eu tenho que conhecer esse cara, e tenho que pedir os direitos para adaptar o livro.” Liguei para o Rodrigo pra marcar a entrevista. Ele me respondeu, ao telefone: “Ramon, você pode vir aqui em casa, mas eu sou esquizofrênico e há 20 anos não vou à rua.” Aquilo me assustou, mas eu marquei o encontro. E a conversa com o Rodrigo foi muito boa, foi um ensaio meio de insanidade e de lucidez. Ele conseguia ter momentos incríveis de lucidez, consciência do trabalho dele, da sua obra, e ao mesmo tempo se conectava com algum outro canal e falava coisas muito fortes que só consegui compreender depois. A morte é muito presente na escrita do Rodrigo. Na entrevista, perguntei se ele tinha medo da morte. Ele respondeu: “Não, Ramon, eu já vivi muito. Estou com 43 anos, acho que já vivi demais. Para quem é esquizofrênico, está ótimo. Eu quero morrer logo. Se eu chegar aos 50 anos, está bom. Quero morrer logo porque quero saber se meu pai vai chorar, se minha namorada vai lembrar de mim, se meu melhor amigo vai chorar no enterro. Depois que morre todo mundo vira Ana Cristina Cesar.” Ele falou isso ao mesmo tempo com seriedade e com uma tristeza muito grande. Ele me marcou muito. Foi a entrevista mais bonita que fiz na minha vida, e aconteceu numa quinta-feira às 3 da tarde. Depois disso ele me ligava todas as quintas-feiras às 3 da tarde para perguntar alguma coisa do livro dele, como estava a adaptação do texto que ele tinha autorizado para o teatro. Um ano depois, eu ainda não tinha conseguido terminar a adaptação, e ele faleceu. A partir disso o pai dele, o Antônio Leão, me convidou para cuidar da sua obra. E agora eu estou tendo a felicidade de poder adaptar esse texto para o teatro. Todos os cachorros são azuis, o projeto de teatro, ganhou o edital da Oi Futuro, entre mais de cinco mil escritos, e eu vou poder enfim adaptá-lo. É uma grande homenagem ao Rodrigo. Na verdade eu gostaria de ter feito isso quando ele estava em vivo, não queria que fosse uma homenagem póstuma. Mas eu fico feliz de poder realizá-la. 

Você também vai publicar outros textos inéditos do Rodrigo.

Ramon Mello - Pois é, o Rodrigo escrevia compulsivamente. E tinha uma relação com a internet muito feroz. Ele escrevia e se comunicava com muitos poetas e escritores, o tempo inteiro. Ele surtou por volta dos 20 anos. Achou que tinha engolido um grilo e que tinham colocado um chip nele. A partir daí, não saiu mais de casa. Então passou a se comunicar muito pela internet. Escrevia poesia, prosa, e mantinha relações muito intensas com grandes amigos. O último livro que o Rodrigo escreveu se chama Me roubaram os dias contados, que será publicado pela editora Record. Existem outros, mas não tenho pressa de colocá-los no mercado. Na verdade, é preciso entender aquele universo do Rodrigo para publicar com calma. 

Fale sobre o All Star bom é All Star sujo.

Ramon Mello - O All Star bom é All Star sujo é um romance que eu comecei a escrever antes do Vinis Mofados. É uma história que se passa em Copacabana dentro de um conjugado, a história de um escritor que está em casa e acredita estar conversando com a analista. Dentro do quarto ele consegue andar por todo o bairro. E tem a presença de um gato, que é um personagem muito forte. O livro se passa em 50 minutos, o tempo de uma sessão de análise.

587363 Última modificação em Sexta, 09 Outubro 2015
Ramon Nunes Mello

Poeta, escritor, jornalista e ativista de direitos humanos. É autor dos livros de poemas Vinis mofados (Língua Geral, 2009) e Poemas tirados de notícias de jornal (Móbile, 2011).

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